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Paranapiacaba

Doramundo

Escrito por  Samotur
on 30/09/2014

 

Clique para ver a versão completa do filme Doramundo

 

O romance Doramundo” de Geraldo Ferraz foi transportado para as telas por João Batista de Andrade em memorável filme, no ano de 1977.

O cenário das filmagens é a a Vila ferroviária de Paranapiacaba (Santo André, SP) que no filme recebe o nome de Cordilheira.

O filme mostra a mudança provocada na rotina e no comportamento dos habitantes deste pequena cidade ferroviária do interior de São Paulo por uma sucessão de mortes estranhas. A Companhia que explora a estrada de ferro resolve intervir temendo a repercussão jornalística dos acontecimentos.

As mortes misteriosas e forma bruta como os interrogatórios policiais são conduzidos traçam um paralelo com o cenário real daquele momento na história brasileira ainda sob regime ditatorial.

-Polícia! Viemos esclarecer umas coisinhas que estão acontecendo por aqui. Todo mundo vai abrir o bico e dar com a língua nos dentes. Entenderam!!!
- QUEM FOI???
Doutor, eu juro, eu não sei de nada!
- Deixe os jornalistas lá fora. A ferrovia não quer escândalo. Tudo tem que ser na surdina. Mas que esse cabra vai falar, vai!
- NÃÃÃOOO!!!
- O próximo!

E Cordilheira se calava. Era terra de silêncio.

Amigos – inimigos.

Casadas – adúlteras.

Geraldo Ferraz foi impiedoso.

Lugar de vacas e cornos!”

O policial (Bogus) trazido de fora para conseguir por um fim nos crimes, que comprometem a reputação companhia. Assume uma ação repressora com interrogatórios pautados no terror e na tortura. O discurso do corrupto se adequa ao dos inquiridores do regime militar brasileiro dos anos 60/70, época de lançamento do filme.

Talvez para confundir o entendimento dos censores da época, em determinado momento a história se perde, ficando por fim, inconclusa.

O autor do romance Geraldo Ferraz, companheiro de Patricia Galvão (Pagu), morador em Santos, jornalista de A Tribuna conheceu a Vila de Paranapiacaba possivelmente em uma de sua incursões jornalísticas para o esclarecimento de crimes misteriosos que assolavam os ares serranos?
Conheceu a alma do lugar! Gélida, enevoada, chuvosa, soturna, calada.
Passagem para muitos – mas somente passagem.

- Nossa, que lugar! 
- Quem será que mora aqui?
- Sei lá! Não dá nem pra saber, o trem já está de partida.

E eles partiam! Por aqui restava, apenas, o silêncio dos trilhos dormentes nos calados dormentes.

- Quem matooou?
- Não sei! Era noite! A neblina!
- Quem morreeeu?
- Um solteiro!
- Mais um?
- Sim, mais um!
- É! Será que essa casada vai ficar feliz por seu marido ter matado por ciúmes, ou vai ficar triste sem o amante?
- Caala a booca idioota! Amanhã pode ser você!

Um, dois, três,.... seis! Quantos?

Belas as cenas dos amantes, vividos pelos jovens Antonio Fagundes e Irene Ravache, que gritam seus apelidos, compondo o título do filme.

No final do período da ditadura, o filme conquista os prêmios de melhor filme, diretor e cenografia no Festival de Gramado de 1978 e é bravamente dedicado pelo diretor em seu discurso, a Vladmir Herzog, primeiro roteirista do filme que havia sido assassinado pelo regime, anos antes.

Quem diria!
Cordilheira tão calma – tão bucólica!
Das janelas dos trens!
Tudo era desgraça, traição, horror?
Não, nem tudo!
Havia Dora Mundo.


No desconsolo de um casamento frustrado Teodora encontrou em Raimundo não a satisfação do corpo, mas o amor profundo que enobrece a alma.

- Perêra, vamu embora daqui!
- Não, eu sô maquinista. Daqui não saio. Eu não vou saber viver em outro lugar.
Coração partido. Jovem. Esperançoso. Pulsando amor. Pulsando entrega. Pulsando por braços.
- Mundo, me leva daqui!
- Eu levo Dora! Mas não sou vagabundo não! Eu vô falar com o Perêra!
- Mundo, você não tem medo? E se ele te matar?
- Tenho não! Nós não vamos sair pelas portas dos fundos. Vamos sair de frente, olhando pra todos. E todos vão saber que a gente se ama. Mas se ama de verdade!
Vamos viver numa cidadezinha do interior - criar nossos filhos.

Na sensibilidade de seres especiais Geraldo Ferraz colocou, talvez, em Dora e Mundo aquele amor que o uniu a Patrícia Galvão – a sua Pagu.
Ao ambientar seu romance no ano de 1939, voltou ao tempo em que sua companheira sofria a mesma força da arrogância policial que os pobres ferroviários estavam conhecendo – e com medo se calavam!
Ao ambientar seu romance em Paranapiacaba mostrou a arrogância de uma empresa elitista e paternalista, que em troca de emprego e de um lazer controlado, exigia o silêncio, mantendo distantes os astutos jornalistas.

- Pessoal! O Raimundo está caído nos trilhos!
- É a Dora, deixem ela passar!
- Minha nossa! Mundo, que fizeram com você? Foi o Perêra!

Momentos da vida – conflitos!
Razão e Paixão!

- Perêra, você havia concordado!
- Não se preocupe moça, o Mundo não vai morrer. O carro ambulância vem rápido nos trilhos.

Juntos se foram. Lar, filhos, amor.
Cordilheira ficou só! Parada, a espera.
De quê?

- Vamos embora, já é tarde.
- Tem razão. Amanhã é outro dia.
- E temos que trabalhar.
- É mesmo, e está chegando a neblina.

No ano seguinte ganhou no Festival de Gramado os prêmios de melhor filme, diretor e roteiro. No elenco Irene Ravache (Dora), Antonio Fagundes (Mundo), Rolando Boldrin (Pereira), Armando Bogus, Olnei Cazarré, Paulo José e outros.

Por ironia do destino seu primeiro roteirista foi Vladimir Herzog, que no ano de 1975 sofreu agruras ainda maiores que Pagu - foi torturado e assassinado nas dependências do Doi/Codi/SP na Rua Tutóia, em mais um regime ditatorial que assolou nosso país.



Ficha Técnica:

Gênero: Policial

Duração: 95 min

Lançamento: 1978 (Brasil)

Direção: João Batista de Andrade

Roteiro inicial: Vladmir Herzog

Roteiro final: João Batista de Andrade, Alain Fresnot, David José

Baseado no romance homônimo de Geraldo Ferraz

Música: José Antônio de Almeida Prado

Fotografia: Antonio Meliande

Produção executiva: Assunção Hernandes

Assistente de direção: Alain Fresnot

Direção de produção: Miron R. Cunha

Montagem: Glauco Mirko Laurelli

Cenografia: Laonte Klawa

Elenco: Rolando Boldrin, Antônio Fagundes, Irene Ravache, Armando Bogus, Rodrigo Santiago, Sergio Hingst, Aldo Bueno, Denise del Vechio, Celso Frateschi, Oswaldo Campozana, Sérgio Hingst, Fernando Peixoto, Denoy de Oliveira, Assunta Perez, Olney Cazarré, David José, Aldo Bueno, Sérgio Milleto, Walter Marins, Suzana Lakatos, Goffredo Telles Neto, Célia Froes, Felipe Donavan, Wilson Rabelo, Ivan Sérgio, Zé da Ilha, Waldir Rocha, Claudette da Silva Pontes, Lourdes de Souza, Dario Souza Santos

Produção: Raiz / Embrafilme

Prêmios:

Festival de Gramado 1978: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Cenografia

Associação Paulista de Criticos de Arte 1980: Melhor Ator (Rolando Boldrin), Melhor Fotografia

Festival dos Festivais de São Bernardo do Campo 1981:Melhor Filme

 

Fontes:

http://www2.uol.com.br/joaobatistadeandrade/doramundo.htm

http://www.avilainglesa.com/doramundo.html